segunda-feira, 11 de maio de 2015

A Democracia é Liberal?


Sem liberdade, a democracia é despotismo.

Será mesmo o liberal clássico contrário a liberdade e a democracia? Será que aqueles que nos chamam de fascistas, ditadores e neoliberais opressores possuem razão em tais acusações? Para responder tais questões, primeiramente precisamos entender os motivos dos princípios liberais. Acreditamos naquilo que defendemos por qual razão?

Sabemos que o governo é constituído por poucas pessoas e depende do consentimento dos governados para o seu funcionamento. Mesmo em um regime não democrático, se a maioria estiver plenamente convencida de que é necessária mudança no governo e na forma de fazer as leis, os dias do velho regime estarão contados. Portanto, em qualquer forma de governo, quando a maioria governada não estiver de comum acordo com as decisões de seus “soberanos”, há meios de fazer com que o governo anterior caia e um novo seja construído em seu lugar. A história nos mostra exemplos de centenas de revoluções, insurreições e guerras civis que tomaram nações e grandes impérios quando a maioria decidiu se rebelar. E é aí que os liberais entram em cena: é justamente o uso da força que eles buscam a todo custo evitar.

Uma situação de crise política como àquela enfrentada pelos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão afundaria o país (e por que não o mundo?) na mais profunda e terrível miséria. Imagine se algo semelhante como a Guerra Civil Inglesa tomasse espaço nos territórios britânicos nos dias de hoje? E não precisamos apenas imaginar, basta olharmos a situação de nações como Síria, Líbia ou Afeganistão sofrendo pesadas perdas em vidas e propriedades. Populações inteiras sofrem com desabastecimento de recursos básicos e tão necessários à vida moderna, como água, comida e energia elétrica.

Povos tomados por tais crises acabam sofrendo com estagnação econômica e empobrecimento geral dos cidadãos. Se há a necessidade de se preparar para contínuas guerras civis e violentas batalhas, cada povo, cada habitação, toda cidade e toda a vila se fortificará para cuidar de sua defesa e, na medida do possível, ser independente do resto do mundo, produzindo tudo quanto necessita dentro dos limites de seu próprio território. Isto significa o fim do livre mercado e uma perda tão grande na produtividade do trabalho que mal daria para alimentar a população que hoje contém em cada país.

Compreendendo todos estes malefícios das guerras, a democracia é um sistema político que visa acabar com guerras civis e insurreições. Se um governo não representa mais o desejo da maioria, não há a necessidade do país passar pela violência revolucionária. Por meio de eleições, debates e acordos parlamentares, a mudança de governo ocorre de maneira suave e pacífica, sem violência ou sangue derramado.

Através da democracia, ainda que a vontade da maioria prevaleça, as vozes dissonantes representadas pelas minorias poderão contar com a possibilidade de se associarem e formarem grupos de interesse que através de meios intelectuais e com o pleno exercício de sua liberdade de expressão, buscarão convencer a maioria a respeito da funcionalidade e legitimidade de seus ideais e objetivos.

Se a minoria é incapaz de convencer a maioria a respeito de suas crenças, por mais que estas sejam de extrema nobreza, pode-se cair na tentação de usar a força para impor determinada vontade. Temos como exemplo os românticos que afirmam categoricamente que “Se uma lei é injusta. É ato moral desobedecê-la!”. Ora, nessa lógica, se eu considero injusta a proibição da pena de morte para crimes hediondos, torna-se um dever moral da minha parte, matar todo e qualquer suspeito de homicídio com requinte de crueldade.

Ora, a convivência social seria impossível (para não dizer insuportável) se todos pensassem de tal maneira. Se todo grupo se enxergasse na possibilidade de, através da força, impor seus direitos e desejos, teríamos que lidar com incontáveis guerras civis em uma sociedade de todos contra todos. A sociedade precisa ser harmônica para seguir ordenadamente em uma mesma direção para alcançar objetivos comuns. Dado os interesses difusos de cada indivíduo, se cada um pudesse simplesmente agir conforme lhe agrada, da maneira que bem entende, não teríamos um Estado de Direito, mas sim um Estado de Natureza onde, no final das contas, vale a lei do mais forte ou mais apto. Por isso, para impedir a anarquia social, dependemos da harmonia traduzida através da formulação de leis.

Se a minoria é incapaz de obter êxito na tarefa de convencer os cidadãos sobre aquilo que desejam, por que através da força seria possível conquistar algum direito ou derrubar alguma lei? Em quantos regimes ao longo da história, a repressão e a força subiram ao governo um líder autoritário que conseguiu manter-se até o fim de sua vida? E mesmo que tal líder tenha conseguido: os resultados conquistados sobrepuseram de alguma forma as inúmeras perdas de vida, sociais e econômicas?  

A força nunca foi, e nunca será, o melhor meio para a conquista de qualquer direito político, devendo ser utilizada apenas em último caso. A tirania exercida pela minoria nunca será suficiente para amordaçar a maioria, a menos que consiga se convencer boa parte do povo a respeito da utilidade de seus atos. Mas nesse caso, a minoria não precisará mais do uso da força para manter-se no poder.

Por isso, o liberal é plenamente a favor da democracia. O cidadão é um indivíduo cujas liberdades individuais devem ser respeitadas e preservadas. Compreende-se que os direitos à vida, a liberdade e a propriedade não podem ser protegidos (quiçá existirem) em Estado de Guerra. Assim, o liberal é um verdadeiro defensor da manutenção da paz e da preservação da vida. Qualquer medida que afete o convívio social de forma violenta ou por meio da força, será rechaçada por ele. Em contraponto, todo liberal defenderá seu legítimo direito à liberdade de expressão. Por mais que suas ideias sejam tolas, ineficientes, atrasadas, antiquadas ou simplesmente imbecis, afinal, a melhor lei, é aquela que também protege meus inimigos, não acha? 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Direito à Vida


Meus Direitos Naturais não são privilégios. Eles não podem ser concedidos à mim por uma pessoa ou grupo. Eles são meus sem o consentimento de ninguém. - Mike Smith Ammon

Da mesma forma que um homem precisa de um código moral para sobreviver – pois de outra maneira, não poderia garantir sua vida -, também a sociedade precisa de princípios morais que organizem a vida social de forma harmoniosa de acordo com a natureza do homem. Todo sistema político é baseado em algum código de ética. Se alguém deseja defender uma sociedade livre, deve compreender que o alicerce indispensável são os princípios dos direitos individuais – incluindo aí o direito à vida, a liberdade e a propriedade.

Quais são as fontes destes direitos individuais? Como eles surgem? Para esclarecer esses pontos, não é preciso textos técnicos demais e nem muita demagogia. É algo extremamente simples de entender. Todo direito individual começa pelo direito à vida, que é a pedra fundamental de todos os outros direitos.

Antes de prosseguir, é imprescindível tornar algo bem claro: A primeira pergunta que deveria ser feita não é “Será que existe algo como o direito à vida?”, mas sim “O homem, no Estado de Direito, precisa do direito à vida, afinal, mas por quê?”. Ora, dado que o ser humano – assim como qualquer animal - não é imortal, nem indestrutível, temos a ele apenas duas alternativas associadas: a questão da vida ou da morte. Se ele falhar no ato de sustentar a vida, ele morre. Se a vida pode ser mantida apenas através de um processo contínuo de ação – caçar, reproduzir, descansar apropriadamente - pode-se concluir que os fins pelos quais todos os animais agem é a garantia de sua vida. Apenas a partir deste conceito podemos começar a pensar em termos de bem e mal, afinal aquilo que é exigido para a vida do organismo, é bom para ele, e aquilo que ameaça sua vida, é naturalmente ruim. A vida, portanto, passa a ser o critério final para o estabelecimento de qualquer valor.

Se o Estado de Direito se formou a partir de uma sociedade primitiva cujo objetivo primário era apenas garantir maior chance de sobrevivência, é razoável (e até coerente) que o Direito à Vida seja estabelecido por lei e estendido aos membros do mesmo grupo social. Pois se não fosse a busca de maior expectativa de vida, a sociedade nem ao menos teria tido um início. 

Indo mais além, o homem, que a partir de seu próprio suor produz para garantir sua vida, deve ter o direito a possuir aquilo que produz. Aquele que o faz para que outros disponham de seu esforço, é um mero escravo. O direito à propriedade é a garantia máxima de que todo indivíduo pode manter para si o resultado de seus esforços.

Como não temos garantido pela natureza um meio automático para se viver e garantir nossa existência, o homem deve fazer um esforço para se sustentar. Desse modo, ele tem que ter liberdade para AGIR e PRODUZIR. Ou seja, a todo indivíduo deve ser assegurado liberdade de ação, tornando-o livre para escolher entre alternativas, sem qualquer coerção física, intelectual ou moral. Impedir o homem de fazer escolhas é atacar indiretamente seu direito à vida.

Se o critério de valor passa a ser estabelecido pela garantia da vida, e se realmente for promovido o Direito à Vida na sociedade, podemos determinar que aquilo que é próprio para a vida de um ser racional é o bem; aquilo que a destrói ou a prejudica, é o mal. Quais seriam então os objetivos corretos para o homem perseguir? Ou seja, quais são os valores que vão garantir com mais chance de sucesso, o que sua sobrevivência requer?

Esta é a pergunta que deve ser respondida pelo estudo da ética. E é por isso, que o ser humano precisa de um código de ética, e principalmente, do direito à vida como sua base de construção. Caso contrário, seríamos levados a construir valores que iriam de encontro aos fins primordiais que deram origem a sociedade, que é a garantia de sua sobrevivência como um todo.

A questão que podemos suscitar em nossos conflitos é: os animais, assim como o homem, possuem direito à vida? Se estabelecermos como critério a racionalidade para que o direito a vida possa existir, isso significa que um feto abortado não caracteriza assassinato e, portanto deveria ser legalizado. O direito à vida é uma necessidade real da sociedade para que possamos construir um Estado ordenado e condizente com os objetivos humanos. Dito isso, faz-se necessário então discutirmos não a validação deste direito, mas sim suas origens, onde ele começa e onde termina? Nas nações em guerra, esse direito some? Só é válido para aqueles dentro da minha sociedade? Qual direito à vida se sobrepõe ao do outro: o da mãe ou o do bebê? Dos mais velhos ou os dos mais novos? Por quê? Prefiro deixar tais questões em aberto, para que a discussão prevaleça e a partir delas, possamos chegar a conclusões interessantes e cabíveis à ética do Direito. 

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